Lopo Carvalho Residence
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Lopo Carvalho Residence
Rua do Teatro 85
Uma casa em gaveto, entre a Rua de Diu e a Rua do Teatro. Típica da viragem do século XIX para o XX, do tempo em que a burguesia do Porto se abriu à influência francesa sem deixar de falar com sotaque da cidade. Cércea baixa, embasamento branco, fachada toda em azulejo amarelo de padrão.
Por cima, a mansarda; as trapeiras marcam o ritmo do alçado, e o telhado de telha vermelha fecha o gesto.
Do lado oposto ao gaveto, um logradouro. A planta é alongada e estreita, e a organização interior faz-se por um corredor central. O jardim é onde esse corredor desagua. Espaço de descompressão inesperado dentro da casa.
Questão de partida: como ampliar uma preexistência que já reúne, em si, linguagens tão díspares e tão imperativas? Para onde? E com quê?
O programa não cabia. A decisão foi conservar a estrutura e os elementos mais característicos da casa, e acrescentar um piso em cima. O acrescento recupera o ritmo e a estratégia dos vãos originais, mas contrasta cromática e materialmente. Mais sóbrio. Sem azulejos. Tenta integrar-se no conjunto e falar a mesma linguagem já definida.
Para tornar mais franca a relação com o jardim, as salas de reunião abrem-se sobre ele por uma bay window.
Um oriel que devolve permeabilidade visual aos dois lados, e que dá ao jardim o estatuto que o corredor sempre lhe tinha sugerido.
O jardim deixa de ser apenas o fim do corredor.
Hounsig Alberto Macedo
Ramalde mudou.
Continua a mudar. O HAM chega a meio dessa mudança e afirma-se como tal.
É uma torre. Uma torre justifica-se quando há razão para o ser, e aqui há: o parque desportivo do Inatel mesmo ao lado, vistas que pedem cota, sol que entra por onde tem de entrar. Razões medíveis num contexto expectante.
Em baixo, um plinto. Faz o trabalho que a torre não pode fazer. Fala com a rua. Recebe quem chega. Acomoda os programas que precisam de cota zero. A torre, acima, vive de outra coisa. Vive da repetição. Planta afinada, estrutura limpa, tipologias que se adaptam ao que a procura exige.
Tipologias pequenas, funcionais, de organização simples, nascem da relação tríptica entre sala, varanda e exterior.
Formalmente, a expressão é contida. Não por timidez, mas por consequência. A norte, o acesso: uma escada exterior escultórica, coluna vertebral de todo o edifício. A sul e a poente, as varandas, extensão funcional do interior.
Condomínio Bairro dos Músicos
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Montevideu Avenue Villa
Rua da Cerca Housing
Quem percorre a Rua da Cerca lê uma sequência de casas com alinhamento próprio, métrica conhecida, ritmo de quarteirão residencial estabelecido a compor a frente de rua. Por dentro, contudo, há uma nave industrial. De outro tempo. A mais para o que o quarteirão.
Como coser este vazio sem rasgar o tecido que já existe?
O RCH ocupa o interior do quarteirão com quatro moradias que alinham a métrica das que estão à frente. O que muda é o jogo: cada casa avança ou recua ligeiramente em relação à vizinha, e é desse pequeno desencontro que nasce a privacidade de cada uma. O conjunto lê-se como continuação do quarteirão, e dá a cada moradia um sítio que é só seu.
Por baixo do solo, as quatro estão unidas. Uma garagem subterrânea serve-as a todas e funciona como base comum invisível. Por cima, são quatro casas. Independentes na vivência, irmãs na linguagem.
A entrada faz-se por um passadiço sobrelevado que conduz às quatro portas. Entra-se à cota superior, e antes de invadir o interior, atravessa-se um pátio exterior. É uma descompressão deliberada, um suspense prolongado. A casa não começa onde acaba o passeio. Começa um pouco depois, e essa demora dá-lhe peso e profundidade.
Neste piso ficam um escritório com entrada independente e duas suites. Subindo, o solário, que avista o mar. Descendo, as zonas sociais: cozinha, sala de jantar e sala de estar abrem-se para o jardim privado de cada moradia.
A casa lê-se em camadas. Dorme-se com o mar à vista. Vive-se com o jardim à porta.
Serpa Pinto Housing
Rua da Torrinha Housing
Questão de partida: como é que um edifício novo, num centro histórico já saturado, devolve à cidade mais espaço público do que ocupa?
O RUTH2 trabalha sobre uma hipótese contraintuitiva: a melhor forma de completar a frente urbana é libertar parte do solo para a cidade. O volume edificado consolida o perímetro, completa a cércea e fecha a frente que estava por fechar. Em troca, abre uma praça nova. Pequena, mas inteira.
Numa malha já apertada, onde o construído pesa mais do que respira, a praça é um pulmão. Livre, ar, luz, lugar. Onde a vida colectiva se cultiva. A cidade ganha em densidade e em respiração ao mesmo tempo, e isso é raro.
O edifício tem dois lados, e fala diferente com cada um. Para a rua, recompõe a continuidade construída e qualifica o passeio. Para a praça, abre-se.
Os percursos e as zonas de permanência são desenhadas como extensão do edifício, não como sobra. O que se constrói e o que se liberta são duas faces da mesma decisão.
A linguagem é contida, e a contenção é o que permite a integração no tecido consolidado. Não imita o existente. Não compete com ele. Encaixa.
A organização tipológica é eficiente, a estrutura construtiva é racional, e essa racionalidade é o que protege o activo do tempo. Adaptável amanhã, sem comprometer o que vale hoje.
House Upon a Pharmacy
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Santa Catarina Apartments
Onde antes funcionava o Tribunal de Pequena Instância Cível do Porto, hoje habita-se. A antiga estrutura institucional é reconfigurada num conjunto de 16 unidades residenciais de estadia prolongada, com tipologias entre T0 e T2, transformando a rigidez do programa pré-existente numa nova espacialidade doméstica, através de uma estratégia de leitura do volume e edição arquitectónica. Em vez de apagar o passado, a intervenção reinterpreta-o, não como ruína, mas como matéria crítica de projecto, moldada por memória, geometria e habitar.
A organização interior inspira-se nas casas senhoriais portuguesas do início do século XX, onde os compartimentos se sucediam sem corredores. Essa lógica distributiva é reinterpretada nos apartamentos, onde a circulação acontece por transição espacial. Cada compartimento é marcado por uma abóbada distinta, com proporções ajustadas à função, criando uma topografia doméstica silenciosa, onde o quotidiano adquire um registo quase cerimonial.
No exterior, a intervenção apresenta dois gestos complementares. A fachada principal é restaurada com contenção, recuperando a cantaria original e introduzindo azulejos de tom azulado, numa evocação subtil da imagem histórica do edifício. Já na tardoz, o volume fragmentado é reorganizado através de uma nova pele geométrica que amplia o envelope e cria varandas sobre o pátio e a piscina. Esta adição reflecte a linguagem formal dos interiores, estabelecendo continuidade entre massa, vazio e ritmo.
O projecto Vila Catarina propõe uma arquitectura capaz de reactivar volumes existentes com programas contemporâneos, através de uma lógica de reabilitação e matéria crítica. A habitação tornou-se uma urgência social, o projecto demonstra um caminho possível para habitar o que já existe, sem nostalgia, mas respeitando a memória, a cultura e o lugar.
Numa altura onde a palavra "sustentabilidade" é regra, fazemos deste caso um exemplo.
Não pelas coberturas verdes nem pelos jardins verticais.
Por reinterpretar o uso, adaptar o construído, perpetuar o edificado no tempo.
O resto é decoração.